Conheça a Música Popular Brasileira: viaje conosco pela história da MPB

Por Thiago Fagundes

A história da MPB se confunde com a vida cultural no Brasil dos anos 60 pra cá. Afinal, são tantos ícones e momentos emblemáticos que aparecem dentro desse campo, não é mesmo?

Nana Caymmi  e Gilberto Gil, durante participação no Festival da Canção, personagens importantes da história da MPB
Nana Caymmi e Gilberto Gil, no III Festival da Música Popular (Domínio Público/Acervo Nacional)

Tudo bem… concordo que o termo MPB seja bastante abrangente e inclua artistas de estilos variados. Em outras palavras, há quem diga que tudo que se produz de música com apelo popular no Brasil poderia ser considerado MPB. 

No entanto, não se pode negar a existência de um tipo de som que a gente ouve e logo associa ao rótulo Música Popular Brasileira. Seja o violão nylon tocando harmonias sofisticadas de bossa e de samba, seja a ênfase nos sons e ritmos percussivos tipicamente brasileiros. Enfim… dá pra sacar a veia MPBista de um artista logo de cara!

E é por isso que neste artigo vamos prestar nosso tributo à história desse gênero tão e rico que tanto nos orgulha! Vem com a gente!

A história da MPB: protesto e resistência!

A década de 1960 no Brasil abarcou a ascensão dos militares no campo político e o declínio da Bossa Nova na música popular. No entanto, o fino da Bossa ainda ecoaria como influência vívida para o violão dos novos da MPB. 

Confira a elaboração harmônica extraordinária desse clássico da Bossa (Olha a quantidade de acordes!):

Em síntese, o que daria origem ao som da MPB seria precisamente a sofisticação harmônica da Bossa Nossa aliada aos ritmos regionais. Por outro lado, nesse primeiro momento, os primeiros MPBistas também eram comprometidos em fazer uma música popular com fortes traços de representatividade nacionalista.

Nesse sentido, chegaram a acontecer movimentos políticos que queriam preservar a cultura nacional da influência “imperialista” que o rock representava na época. Como, por exemplo, a Marcha contra a Guitarra Elétrica (1967), também conhecida como Passeata da MPB. Esse evento foi liderado por Elis Regina e contou com a participação de Gilberto Gil.

A MPB nos anos 1960 é marcada também pela canção de protesto. Naquele cenário, artistas como Geraldo Vandré produziram verdadeiros hinos de resistência à opressão do regime militar, como Pra não dizer que não falei das flores

Em 1968, Vandré apresentou a música no Festival Internacional da Canção, da TV Globo. Como resultado do posicionamento político dos artistas da MPB, houve dura reação dos militares. Naquele tempo, músicos e compositores eram coagidos, intimidados, presos ou exilados por se oporem à ditadura.

A era dos Festivais de Música Brasileira

Entre 1965 e 1985 os Festivais de Música Brasileira revelaram grandes nomes da MPB. Nesses concursos que eram exibidos nas principais emissoras de TV e rádio do país, artistas como Gal Costa, Caetano Veloso, Elis Regina, Chico Buarque, Gilberto Gil entre outras estrelas foram apresentados ao grande público.

Aliás, foi no primeiro ano desse período, no Festival da Música Popular Brasileira (da TV Excelsior), que Elis Regina despontou para o estrelato. Na ocasião, a cantora sagrou-se campeã com sua interpretação matadora de Arrastão. Confira abaixo esse som:

https://www.youtube.com/watch?v=gf8Cqv_HqJI

Tropicália: a marca da guitarra elétrica na história da MPB

Posteriormente, no III Festival de MPB da Record, em 1967, os MPBistas fizeram as pazes com a guitarra elétrica. Afinal, foi naquele palco que Gilberto Gil se uniu aos Mutantes Rita Lee, Sérgio Dias e Arnaldo Batista. Juntos eles apresentaram o clássico Domingo No Parque.

A gig de Gil com os Mutantes mostrou as premissas do movimento Tropicalista. Decerto essa galera queria mais era misturar tudo: música folclórica, bossa nova, erudita, rock, jazz e o que mais desse na veneta! Afinal, arte deve ser sempre sem preconceitos.

Posteriormente, sairia o disco manifesto do movimento, intitulado Tropicália ou Panis et Circencis (1968). Nesse LP, os tropicalistas mostram a que vieram, destilando um caldeirão de influências das mais diversas. 

No bolachão da tropicália colaboram um time de peso. A saber, gente como Caetano, Nara Leão, Gil, Os Mutantes e Tom Zé. Além desses compositores, os poetas Torquato Neto e Capinam também contribuíram com letras. O grande Rogério Duprat, por sua vez, assina as orquestrações. 

A MPB dos anos 1970

Graças a abertura festiva da MPB que o tropicalismo fez em fins dos anos 60, uma galera de outras regiões resolveu entrar em cena. Como resultado, na década de 70, artistas do Nordeste e de Minas invadiram a cena da MPB, deslocando o eixo Rio/São Paulo.

Vindos do nordeste, artistas como Alceu Valença, Belchior e Zé Ramalho, só pra citar alguns, consolidaram elementos da contracultura e do rock em seus discos de estreia. Sem, no entanto, deixar de experimentar com ritmos regionais nordestinos.

Quem também ajudou a definir os contornos mais ecléticos do som da MPB na década de 1970 foi o grupo Novos Baianos. Misturando samba, rock, baião, chorinho, afoxé, entre outros ritmos, os caras mostraram toda a sua versatilidade fazendo uma batucada boa no clássico Acabou Chorare . Confira aí!

https://www.youtube.com/watch?v=ojeJ-DCMtls

Milton Nascimento fez sua estreia em disco com Travessia (1967) e já tinha prestígio e reconhecimento da cena musical brasileira quando lançou o emblemático Clube da Esquina. Afinal, esse clássico de 1972 apresentou também ao Brasil o gênio Lô Borges e toda uma galera talentosíssima de Minas.

Enfim, músicos, compositores e poetas fechavam o time do Clube da Esquina, que passou a ser um movimento dentro da MPB.

Todos eles viraram grandes expoentes do movimento musical mineiro… Beto Guedes, Toninho Horta e Wagner Tiso são alguns dos artistas que emprestaram seu talento à gravação do disco.

Assim como a Tropicália, o clube da esquina é eclético nas referências. Aliás, o som do Clube misturava de tudo: rock, jazz, música hispânica e música erudita. No entanto, não deixaram de imprimir uma identidade mineira, meio barroca, nessa salada musical.

A história recente da MPB: dos anos 1980 aos dias atuais

Na década de 1980, aconteceu a redemocratização do país. Com o clima festivo e a grande efervescência cultural daquele momento, a MPB passou a predominar na cena musical brasileira. Agora, finalmente não mais perseguidos pelo regime militar e livres da censura, nossas estrelas brilham na TV e no rádio. 

A efetivação da MPB como gênero de prestígio e popularidade no país naquela década se dá com o programa Chico e Caetano, da Rede Globo. Aliás, essa atração marca a reaproximação de Chico Buarque com a emissora e consolida o prestígio e a popularidade desses dois gigantes da nossa música popular brasileira.

Posteriormente, nas décadas que seguem, a MPB vai aglutinando cada vez mais artistas de peso. Nos anos 1990, por exemplo, Zeca Baleiro, Lenine e Adriana Calcanhoto emplacam músicas na rádio e contribuem ainda mais com a popularização do gênero musical.

Mais recentemente, os artistas da Nova MPB ajudaram a dar fôlego ao movimento em um ambiente em que predominam as mídias sociais e a internet. Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz e Tiago Iorc são alguns dos expoentes dessa repaginada que a música brasileira ganhou. 

Lembra daquele seu amigo do violãozinho de nylon, pois é… aposto que ele também vai adorar essa incursão pela rica história da MPB. Então, já sabe, né? Não deixe de compartilhar o post com a galera e espalhe a palavra do Cifra!