Viola caipira: conheça a história desse instrumento

Por Izabela Ventura

Quando cantou para o mundo “quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar”, em Ponteio, Edu Lobo mal sabia que esse instrumento ainda tinha muita história pela frente. A viola caipira então, um dos tipos mais emblemáticos do Brasil, é carregado de contos e tradições, ajudando a narrar um pouco da história da cultura brasileira. 

Ivan Vilela toca viola caipira, durante apresentação da Orquestra Sinfônica de Limeira, em 2018
O mineiro Ivan Vilela é um dos violeiros mais notáveis na música brasileira (Foto/flickr Caipira Lab)

Apesar de o samba e a bossa nova terem uma imagem de brasilidade mais difundida no exterior, a música de viola tem uma diversidade enorme de ritmos. Podemos citar, por exemplo, o pagode (que é bem diferente daquele pagodinho que ficou popular no país a partir dos anos 90!).

Também conhecida como viola cabocla, a viola caipira é um instrumento vasto em tipos, formas e sons, mas convoca, acima de tudo, a simplicidade como modo de vida.

Bora aprender tudo sobre ela?

Como surgiu a viola caipira

A viola caipira é um instrumento de origem de Portugal. É oriunda da viola portuguesa – que veio dos instrumentos árabes, como o alaúde –, e já fazia sucesso no Velho Mundo antes de os povos lusos aportarem por aqui. 

Estima-se que essa “velhinha” tenha entre 700 e 800 anos, mas certeza mesmo é de que teve papel importante na catequização dos povos indígenas no Brasil, no século XV. Atravessando fronteiras nas caravelas, a viola chegou por aqui na época da colonização e foi utilizada pelos Jesuítas para acompanhamento nas canções religiosas. 

E a viola rodou muito esse Brasilzão afora, viu? Depois dos colonizadores, passou pelas mãos dos bandeirantes e, posteriormente, dos tropeiros. As letras cantavam aventuras e, claro, a saudade da terra natal, dos amores e entes queridos que aguardavam por eles. Mas foi no final do século XIX é que começou a se configurar o que hoje conhecemos como música caipira.

A matriz da viola caipira está imortalizada na obra de Almeida Júnior
A famosa obra O Violeiro, de Almeida Júnior, data de 1889 (Imagem/Internet)

Além dos ritmos, o instrumento passou por mudanças físicas, ganhando seus formatos abrasileirados, sendo, um deles, o que atualmente se chama de viola caipira. Mas também pode chamar essa belezinha de viola cabocla, sertaneja, nordestina, de festa, de folia, de feira ou brasileira. 

Em 1929, Cornélio Pires começou a empreender as primeiras gravações com viola, popularizando o nome viola caipira. Ele foi o responsável pela primeira produção independente do Brasil de álbuns do gênero, e saiu viajando, tocando e vendendo discos pelo país.

A importância da viola caipira hoje

Verdade seja dita: apesar de o sertanejo com pegada mais pop ter abocanhado a maior parte do mercado fonográfico, a viola caipira tem seu espaço incontestável na música. Para os legítimos violeiros caipiras, a viola é uma arte e o resultado de séculos de histórias, causos e lutas de comunidades e áreas de convívio.

A importância cultural dela é tamanha a ponto do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) analisa um projeto para reconhecê-la como patrimônio imaterial brasileiro. 

Segundo o documento, a viola une diferentes grupos sociais, dentre eles violeiros solistas e cantadores que se apresentam em duplas, trios, junto a manifestações folclóricas ou religiosas e orquestras. 

Luthier trabalha na construção de uma viola caipira na fábrixa da Rozini
A lutheria é um dos setores movimentados pela importância da viola caipira (Foto/Adriano Ferreira)

Outra justificativa da proposta é que a cadeia produtiva do instrumento mobiliza também luthiers, fabricantes artesanais e acadêmicos que se dedicam à pesquisa e ao ensino. 

Inclusive, a viola caipira deixa sua marca no ensino superior, figurando em instituições como a Universidade de São Paulo, que tem uma habilitação específica para o bacharelado em Música

No entanto, independentemente de questões formais, a tradição da viola caipira está mais viva do que nunca. Prova disso é que está presente em eventos de todos os portes, desde os gigantes festivais das capitais às festinhas de família no interior. 

Também contribui para a expressividade do instrumento o trabalho de grandes expoentes da viola caipira, como Almir Sater e Bruna Viola. Ambos continuam divulgando o instrumento com trabalhos atuais, mas, claro, sem perder o espírito nostálgico que o instrumento evoca. 

Diferenças entre viola e viola caipira

No geral, a viola é bastante associada à música caipira, mas agora você vai descobrir que nem toda viola é caipira. Ela é mais uma das variantes regionais do que chamamos de viola brasileira que, por sua vez, tem origem na viola portuguesa, conforme já contamos. 

Instrumento capaz de musicalizar diversos ritmos, a viola caipira é um dos elementos que diferencia a música caipira da música sertaneja, por exemplo. Nesse caso, o primeiro ritmo é, necessariamente, o resultado de regionalismos, rituais e folclores manifestados de forma histórica pelas comunidades que os conceberam. 

Outra diferença é que a música sertaneja, sobretudo a dos dias de hoje, é mais “paramentada” com guitarras e baixos elétricos, teclados, e otras cositas más que embalam aquelas superproduções.

Bruna Viola é tocando viola caipira, durante apresentação ao vivo
Bruna Viola é uma das forças da viola caipira no cenário atual da música brasileira (Foto/Internet)

A viola caipira mais tradicional tem dez cordas agrupadas aos pares, seguindo o padrão Mi, Si, Sol, Mi, Si. As cordas são de aço, o que pode exigir um esforço a mais de quem está fazendo a transição de um violão de cordas de nylon para a cabocla.

Contudo, a viola caipira é apenas um dos nove tipos de viola brasileira. Os outros oito tipos se diferem principalmente em virtude da região do país em que foram desenvolvidos. São eles: viola angrense; viola branca; viola de Queluz; machete; viola de cocho; viola de cabaça; de buriti; viola dinâmica.

E lá vai mais uma curiosidade! Inicialmente a viola caipira era manejada por homens do campo, com mãos e dedos duros e espessos pela lida nas lavouras, certo? É por isso, inclusive, que as cordas são dispostas de forma que, com apenas dois dedos, o violeiro e a violeira conseguem fazer o acompanhamento para a maioria das músicas.

Partiu fazer a viola chorar?

Agora que você já conhece a origem e a importância desse instrumento carregado de histórias, está na hora de aprender a tocar a viola com o Cifra Club. Nosso curso de viola é gratuito e feito em parceria com a Rozini.

Nas 15 aulas, o músico Zé Helder ensina desde os primeiros passos com o instrumento à leitura de tablaturas. Com esse treinamento certeiro e – muita dedicação, claro – você vai ficar fera nos principais ritmos, músicas e violeiros, estrutura, som, técnicas e características da viola. É imperdível!